A tarifa adicional imposta por Washington sobre produtos brasileiros entrou em vigor no fim de julho e acende alerta na indústria mineira, mesmo com sinais mistos na economia do estado
A tarifa adicional de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre uma extensa lista de produtos brasileiros passou a valer em 22 de julho, e Minas Gerais está entre os estados mais expostos aos efeitos da medida. Mercadorias que já haviam iniciado o transporte antes dessa data ainda podem escapar da cobrança, desde que cheguem ao mercado americano até 29 de julho, segundo informações divulgadas pelo jornal Estado de Minas. A Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) avalia que a sobretaxa deve pressionar preços, margens e contratos das empresas mineiras que vendem para os Estados Unidos.
Entre os itens mais afetados estão o sebo de origem bovina, ovina ou caprina, com cerca de US$ 34 milhões em exportações, e os disjuntores de baixa tensão, com aproximadamente US$ 33 milhões embarcados. No total, os envios mineiros ligados a essa lista tarifada somaram algo próximo de US$ 1,6 bilhão em 2025, uma fatia relevante do volume nacional dentro dessas categorias, conforme análise da Fiemg. A entidade representa boa parte da indústria instalada no estado e costuma ser a principal fonte de dados sobre o impacto de medidas comerciais internacionais sobre a economia mineira.
Enquanto isso, o governo federal negocia outra frente de disputa comercial. Na sexta-feira, 24 de julho, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) deve divulgar o resultado de uma investigação sobre importações brasileiras produzidas com trabalho forçado, o que pode resultar em uma sobretaxa adicional de 12,5%. Caso se confirme, esse novo capítulo tende a somar mais incerteza para empresas mineiras que já lidam com a primeira rodada de tarifas, especialmente aquelas com contratos de longo prazo firmados antes do anúncio da medida.
O impacto do tarifaço chega em um momento delicado para a economia mineira. Segundo a Fundação João Pinheiro, o Produto Interno Bruto (PIB) de Minas Gerais recuou 0,5% no primeiro trimestre de 2026 na comparação com o último trimestre de 2025. Esse resultado interrompe parte do otimismo que vinha sendo construído nos trimestres anteriores e reacende o debate sobre a dependência do estado em relação a setores mais sensíveis a choques externos, como a indústria de base e o comércio exterior.
A construção civil puxou parte dessa queda no início do ano. De acordo com o Boletim da Construção elaborado pela Fiemg, o setor caiu 3,7% no estado no primeiro trimestre, enquanto o Brasil cresceu 1,3% no mesmo período. Na comparação com o trimestre anterior, a diferença também chama atenção, já que a construção mineira recuou 0,2% enquanto a atividade nacional avançou 2,9%. O resultado reforça um processo de desaceleração que já vinha sendo observado desde 2025, quando o setor acumulou queda de 2,3% no estado.
Nem tudo, porém, é retração. O setor de serviços tem sustentado boa parte do desempenho da economia mineira, puxado por um mercado de trabalho aquecido, e foi o único segmento a registrar crescimento em Minas no primeiro trimestre de 2026. Esse comportamento ajuda a explicar por que, mesmo com o PIB em queda, o mercado de trabalho no estado não deu sinais de deterioração mais acentuada nos últimos meses.
O varejo também mostrou reação recente. O Índice Stone do Varejo apontou alta de 1,1% em junho na comparação mensal, interrompendo dois meses seguidos de queda, que haviam sido de 0,2% e 0,7% em abril e maio, respectivamente. Segundo analistas ouvidos pelo Diário do Comércio, fatores como injeção de dinheiro na economia e a manutenção de postos de trabalho ajudaram a sustentar esse resultado, mesmo em um ano que não tem sido especialmente favorável ao consumo.
Há ainda um alívio no bolso do consumidor mineiro que abastece o carro. Entre junho e julho, o diesel comum caiu 2,7% e o etanol recuou 2,1%, favorecidos pela estabilização do petróleo e pela safra da cana. Para quem depende do transporte rodoviário de cargas, setor especialmente relevante em um estado com forte vocação industrial e agrícola, essa queda nos combustíveis pode representar algum respiro nos custos logísticos justamente em um momento de maior pressão externa.
O que essa combinação de sinais indica é que Minas Gerais entra no segundo semestre de 2026 em um equilíbrio instável. Parte da indústria enfrenta um cenário externo mais hostil por causa do tarifaço americano, enquanto serviços e varejo tentam segurar o crescimento doméstico. Para empresários exportadores, o momento pede atenção redobrada a contratos e prazos de embarque, já que o prazo de transição até 29 de julho é curto e pode não abranger todas as operações em andamento.
Para o consumidor final, o alívio nos combustíveis pode ajudar a compensar parte da pressão inflacionária vinda de outros setores da economia. Já para o poder público estadual, o desafio passa a ser acompanhar de perto os efeitos do tarifaço sobre o emprego industrial, especialmente em regiões mais dependentes de exportações para os Estados Unidos, e avaliar se será necessário algum tipo de apoio ou negociação junto ao governo federal para mitigar os impactos mais agudos.
Fontes consultadas:
https://www.em.com.br/economia/2026/07/7465811-tarifaco-entra-em-vigor-e-pressiona-economia-de-minas-gerais.html
https://diariodocomercio.com.br/economia/pib-minas-gerais-recua-1o-trimestre-2026/
https://diariodocomercio.com.br/economia/construcao-civil-minas-2026/
https://diariodocomercio.com.br/economia/varejo-minas-gerais-cresce-2o-trimestre-2026/
https://diariodocomercio.com.br/economia/precos-etanol-diesel-minas-gerais/
