O recomeço após experiências de violência e vulnerabilidade não segue uma trajetória previsível. Taiza Tosatt Eleoterio, profissional com atuação em saúde mental, relações familiares e apoio a mulheres em situação de vulnerabilidade, integra um campo de conhecimento que compreende a reconstrução emocional como um processo singular, não linear e profundamente influenciado pelo contexto em que ocorre.
Falar sobre recomeço após violência exige afastar tanto o otimismo fácil das narrativas de superação quanto o pessimismo que subestima a capacidade humana de elaborar e reconstruir. O que existe entre esses dois extremos é mais complexo, mais humano e, frequentemente, mais verdadeiro.
Reconstrução emocional em camadas: da necessidade de segurança à nova identidade
Reconstruir a vida após situações de violência não é sinônimo de apagar o que aconteceu ou de agir como se as experiências difíceis não tivessem existido. É, antes, um processo de integração: aprender a carregar essas experiências de uma forma que não impeça o desenvolvimento nem comprometa de maneira permanente a capacidade de viver com mais liberdade e bem-estar.
A distinção entre “superar” e “elaborar” é relevante aqui. Superar sugere que o passado pode ser deixado para trás, como se a dor e as marcas que ela deixou pudessem ser simplesmente descartadas. Elaborar é um processo diferente: implica construir uma relação diferente com o que foi vivido, atribuir novos sentidos às experiências e integrar a dificuldade à própria história sem que ela se torne a única história possível.
Conforme pondera Taiza Tosatt Eleoterio, a reconstrução emocional após violência é um processo que ocorre em camadas. Há uma primeira camada mais imediata, relacionada à segurança física e material. Há uma segunda camada que diz respeito à reorganização emocional e à elaboração do que foi vivido. E há uma terceira camada, mais profunda, que envolve a reconstrução da identidade e da capacidade de estabelecer novos vínculos com mais segurança.
Essas camadas não se sucedem de forma ordenada. Frequentemente, trabalha-se em todas ao mesmo tempo, e o progresso em uma área pode ser acompanhado de retrocessos em outra. Compreender essa não linearidade é fundamental para que o processo não seja avaliado de maneira injusta.
Identidade afetada: como relacionamentos abusivos moldam a percepção de si mesma?
Taiza Tosatt Eleoterio esclarece que o período que se segue imediatamente à saída de uma situação de violência ou vulnerabilidade grave tende a ser marcado por uma combinação de alívio e desorientação. O alívio de estar em um lugar mais seguro pode coexistir com a sensação de perda, de incerteza e de não saber ao certo quem se é fora daquele contexto que, por mais doloroso que fosse, também representava uma estrutura de referência.
A identidade, ao longo de um relacionamento abusivo, frequentemente vai sendo moldada pelas narrativas do agressor: a mulher começa a se ver pelos olhos de alguém que a desqualifica sistematicamente. Desfazer esse processo não é automático. Mesmo depois da separação física, as vozes internalizadas ao longo do relacionamento podem continuar presentes, influenciando a forma como a pessoa se percebe e se relaciona com o mundo ao redor.
Como ressalta Taiza Tosatt Eleoterio, a recuperação emocional não começa no dia em que a mulher sai da situação de violência. Ela começa em algum momento anterior, quando algo muda na percepção de si mesma ou da situação, e continua por um longo período depois que a saída ocorre. O suporte disponível nesse período é determinante para a qualidade do processo.
Questões práticas, como moradia, sustento e suporte jurídico, são urgentes e não podem ser negligenciadas. Mas elas precisam ser acompanhadas de suporte emocional para que a pessoa em reconstrução não se veja reduzida às suas necessidades mais imediatas, perdendo de vista os processos mais profundos que também demandam atenção.
De que forma os vínculos afetivos influenciam a reconstrução da autoconfiança?
Uma das dimensões mais complexas do processo de reconstrução após violência é a reconstrução da identidade. Taiza Tosatt Eleoterio comenta que, ao longo de um relacionamento abusivo, a percepção de si mesma vai sendo gradualmente modelada pelas mensagens recebidas do agressor. Sair desse contexto não significa que essas mensagens desaparecem imediatamente. Significa, antes, que existe agora a possibilidade de questioná-las e, progressivamente, substituí-las por percepções mais verdadeiras.
Esse processo é facilitado pela qualidade dos vínculos disponíveis no período de reconstrução. Relações que oferecem presença, consistência e respeito pela autonomia da pessoa em recuperação contribuem para que ela vá reconstruindo, de forma gradual, a confiança em si mesma e nos outros. Relações que pressionam, que impõem expectativas ou que tratam a recuperação como um processo linear podem ter o efeito contrário.
Na concepção de Taiza Tosatt Eleoterio, o acompanhamento psicanalítico tem um papel específico nesse processo de reconstrução identitária. O espaço clínico oferece um vínculo que, ao mesmo tempo, é estruturado o suficiente para proporcionar segurança e flexível o suficiente para acomodar os diferentes ritmos e as diferentes formas que o processo de elaboração pode assumir em cada pessoa.
A reconstrução dos vínculos afetivos, em um sentido mais amplo, também faz parte desse processo. Aprender a confiar novamente, a estabelecer limites, a reconhecer comportamentos que geram bem-estar e a se afastar de comportamentos que replicam as dinâmicas do passado são aprendizagens que ocorrem de forma gradual e que demandam paciência, tanto da pessoa em reconstrução quanto de quem a acompanha.
Por que é importante integrar o suporte emocional e material no processo de recuperação?
A reconstrução emocional após violência e vulnerabilidade não pode ser dissociada das condições materiais em que ocorre. Uma mulher que sai de uma situação de violência sem moradia estável, sem renda e sem acesso a recursos básicos enfrenta obstáculos que interferem diretamente na sua capacidade de se dedicar ao processo de elaboração emocional. As necessidades imediatas demandam energia e atenção que, em outras circunstâncias, poderiam ser direcionadas ao trabalho interno.
Isso não significa que a reconstrução emocional só é possível depois que todas as condições materiais estejam resolvidas. Significa que as duas dimensões precisam ser tratadas simultaneamente, com a compreensão de que o progresso em uma área facilita o progresso na outra.
Segundo a análise de Taiza Tosatt Eleoterio, políticas públicas e redes comunitárias que oferecem suporte integral, abrangendo tanto as necessidades práticas quanto as emocionais, são mais eficazes do que intervenções que tratam esses aspectos de forma isolada. O cuidado com a pessoa em situação de vulnerabilidade precisa ser tão integrado quanto às dimensões que compõem essa vulnerabilidade.
O tempo, por sua vez, é um elemento que não pode ser apressado. A reconstrução emocional tem seus próprios ritmos, e respeitar esses ritmos é parte essencial de qualquer abordagem responsável sobre o tema.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
